VideoBro / A sessão
A sessão: como um filme caseiro é assistido.
Não por que a gente filma. O que é preciso, de fato, para parar tudo e assistir.
A fita tinha que entrar na máquina
A filmadora gravava num cassete VHS-C, uma fita pequena que vivia dentro de um adaptador de plástico do tamanho e formato de uma fita VHS comum. Para assistir, você tirava o cassete da câmera, encaixava no adaptador e empurrava o adaptador para dentro do videocassete embaixo da televisão. Depois puxava um cabo, amarelo, branco e vermelho, da parte de trás do videocassete até a parte de trás da televisão, porque esse era o único caminho que uma imagem em movimento tinha para entrar naquela sala.
Todo mundo sentava no sofá porque era ali que passava, e só existia uma televisão, e era aquela mesma. Ninguém escolhia se reunir. O formato não deixava outra opção.
Três condições, cumpridas sem querer
Um filme caseiro era assistido por três razões simples, e nenhuma delas foi uma decisão de design.
- Um objeto finito, com um fim. Um cassete acabava, numa duração que ninguém escolhia, e por causa disso uma sessão tinha um começo e um fim.
- Uma tela maior que uma mão. A única tela que a casa inteira tinha, então assistir significava todo mundo assistir junto, ou ninguém assistia.
- Uma ocasião. Um cassete parado numa gaveta não faz nada sozinho. Alguém precisava dizer o nome da fita em voz alta, tirá-la da prateleira e dizer: vamos assistir.
Era o que um cassete, um videocassete e uma única televisão compartilhada impunham a quem os tinha.
Ninguém assistia com mais atenção. Só tinha menos jeitos de não assistir.
O que o celular tirou
O rolo de câmera do celular não tem nenhuma das três condições, e perdeu todas elas de uma vez, não uma de cada vez.
Não tem fim. A filmagem só se acumula, sem nada que a encerre, sem uma prateleira onde uma coisa pronta fica e se anuncia como pronta. A tela é a errada: a menor que você tem, segurada a poucos centímetros do rosto, feita para uma olhada privada e não para uma sala. E não tem ocasião, porque nada num rolo de câmera convida ninguém a se reunir em volta dele. Agora o ciclo de revisão vive no mesmo bolso que o botão de gravar, o que muda tanto o que fica guardado quanto o que é assistido, e isso é um assunto à parte: veja a defesa do filme caseiro imperfeito para o argumento completo.
Três condições, perdidas num único aparelho. O hábito foi junto.
Tornando possível assistir de novo
A primeira condição a restaurar é o fim. Uma fita não decidia acabar; o botão Revelar do VideoBro faz o mesmo trabalho, de propósito. Qualquer membro de uma fita com uma conta toca nele, o app pode fechar enquanto roda na nuvem, e o que volta é um filme só: todos os clipes da fita, na ordem em que foram realmente gravados, cortes já aplicados, nada solto. A filmagem para de se acumular e vira uma coisa pronta, do jeito que um cassete cheio costumava ser.
A segunda condição é a tela, e aqui a solução nem é um recurso do app. Um filme pode ser compartilhado com qualquer pessoa por um link não listado, e esse link abre em qualquer navegador, em qualquer aparelho, sem precisar de app nem de conta. Abra num notebook, ou do jeito que você já leva o celular até a televisão, e a maior tela da sala passa a exibir o filme, exatamente como o videocassete fazia antes.
A terceira condição é a ocasião, e essa o VideoBro não consegue fornecer: alguém ainda precisa dizer vamos assistir. O que ele pode tirar do caminho é a coisa mais capaz de fazer alguém desistir. Ninguém marca uma noite em volta de três horas de filmagem de outra pessoa. Uma fita comporta até 2 horas de filmagem em qualquer plano, e nada obriga você a preenchê-la: vinte minutos de uma semana de verdade já são uma sessão, três horas viram tarefa, e você Revela sempre que a fita parecer pronta.
Depois de pronto, o filme tem um lugar para ficar. Ele chega na Videoteca de cada pessoa da turma, um cartão com nome, data e duração, e você pode movê-lo para uma prateleira, do mesmo jeito que um cassete etiquetado ia para uma prateleira. Ele tem um lugar, o que é diferente de simplesmente existir em algum canto do celular.
Veja a mecânica de chegar lá do zero em como fazer um filme caseiro, cujo último passo é assistir de propósito, não só terminar.
A parte que o VideoBro não consegue fazer
Nada disso faz alguém assistir a nada. Um filme pronto que ninguém convoca para ver fica na Videoteca tão intocado quanto um rolo de câmera fica no celular. O VideoBro pode dar à filmagem um fim, uma tela que ela consegue alcançar e uma duração que alguém realmente aguenta assistir. Ele não consegue dizer vamos assistir em voz alta no seu lugar. Essa parte sempre foi da família, e continua sendo.
Revele, depois escolha uma noite.